As pessoas sentam, as luzes se apagam e as falas cessam. Um brilho nasce nas três telas do Centro de Eventos da PUCRS e os vídeos passam a rodar. Um pedido é feito aos participantes: que se desconectem. Dos aparelhos eletrônicos, dos problemas e dos anseios. É convidada para subir ao palco Jéssica Homem, professora de yoga, que propõe instantes de aquietamento do corpo e da alma. “As ansiedades e os medos nos fazem correr e correr, sem nem ao menos sabendo para onde”, diz.

Após o exercício de relaxamento, pouco a pouco pessoas começam a se levantar e, entoando em uníssono um canto, se dirigem para a frente do palco. Os vocais emitidos começam a tomar forma e se tornam palavras, que, acompanhadas pelas notas do teclado da musicista Simone Rasslan, fazem desta abertura de SET Universitário uma das mais únicas e emocionantes da história do evento. Em pé, a plateia aplaude calorosamente a apresentação do grupo vocal Canta-Ventos.

Grupo Canta-ventos se apresentou na abertura Foto Lenara Pothin/Famecos/PUCRS

Ao fim da performance do coral, as apresentadoras da abertura do 32º SET Universitário tomam a palavra: as ex-famequianas Alice Bastos Neves, que apresenta diariamente o principal telejornal esportivo do Rio Grande do Sul, o Globo Esporte, e Kelly Matos, apresentadora do Timeline, na Rádio Gaúcha. Instigando o público com o questionamento “qual o sentido do tempo?”, as duas chamam ao palco os convidados deste ano: Sarah Brito, Ulisses Carrilho e Tulio Custódio.

Custódio trabalha na Inesplorato como curador de conhecimento, profissão que procura dar sentido e desfragmentar o excesso de informação disponível. “Conhecimento é o produto pelo qual damos sentido às coisas”, ressalta ele. “Acreditamos que todo conhecimento abre janelas, mas atualmente temos muito acesso a informação e não sabemos como lidar com ela”. O curador acredita que atualmente vive-se um momento de fragmentação: “É essa coisa de termos um corpo aqui, mas a cabeça estar em vários lugares”.

O curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, Ulisses Carrilho comenta que a sociedade aprendeu a conviver com o caos do tempo. Devido à correria do cotidiano, ele sugere a criação de métodos para desacelerar. Para ele, um bom exemplo disso é a arte, porque ela provoca essa desaceleração. “Como vamos passar o nosso tempo e como produziremos o nosso ócio vai muito de como vivemos o nosso dia a dia”, conta.

16.09.19: Abertura do 32∫ SET Universit·rio. Foto Lenara Pothin/Famecos/PUCRS

A terceira participante da abertura é Sarah Brito, estrategista cultural da Torus, profissão que surge para refletir sobre a sociedade e a diversidade. Ela ressalta a importância de analisar o passado para então pensar o futuro e diminuir as preocupações: “A vivência vai ensinando que é preciso manter ao mesmo tempo a utopia e o pragmatismo. Assim, a ansiedade se dilui”. Para a convidada, uma boa dica para sentir o tempo é se conhecer, parar e refletir sobre o que realmente gosta ou não. “Eu acredito que o tempo existe em nós, então só conseguimos controlar ele se controlarmos a nós mesmos”, expõe.

Os três convidados também comentam sobre a atual situação política e social do país. Ulisses Carrilho conta sobre o caso do barramento da exposição Queermuseu e como a arte no Brasil sofre repressões. Ele afirma que a história brasileira é, há 519 anos, uma história de desigualdade. Ele exemplifica com o fato de o Brasil ser o país com maior índice de assassinatos de pessoas transgênero, mas ao mesmo tempo um dos países que mais acessa conteúdo trans em sites pornográficos: “Nós vivemos uma incoerência gigantesca, porque queremos matar o nosso desejo”.

Para Túlio Custódio, estamos passando por um processo de desvio de rota como país. “Quando a gente conhece a história do Brasil, a gente vê que estamos no caminho certo, mas precisamos sonhar e construir o país que queremos”, afirma. “E todos nós precisamos fazer esse percurso juntos”.
Também sobre o futuro, Sarah Brito acredita que sem analisar o passado, não há avanço: “Eles querem que a gente volte para o armário, para as senzalas, para as cozinhas. É importante a gente saber de onde a gente veio para ter perspectiva do futuro”. Para ela, estamos no momento de sonhar e planejar o futuro. “Esse mar de lama que nos atinge querendo nos puxar para baixo é só um discurso”, diz, confiante.

Por Gabriel Salazar, Amanda Gorziza  | 17 de setembro de 2019

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