Eles vivem para romper paradigmas
16 de setembro de 2013 (22:57) | Por Maria Polo e Samuel Lima

Rene Silva é morador do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Nasceu na favela, cresceu na favela. Após participar do jornal da escola, aos 11 anos, por iniciativa própria, decidiu criar o Voz da Comunidade, em que busca até hoje mostrar problemas sociais cotidianos e criar campanhas para melhorar a vida do ambiente em que vive. Rene não é um fenômeno. Não deve ser tratado como uma exceção, um caso de sorte. É isto que o geógrafo, ativista, pesquisador e também crescido na favela, mestiço e filho de nordestinos, Jaílson de Souza e Silva, quer mostrar. Criador do Observatório das Favelas, ele dedica a vida a romper estigmas sociais. Os dois Silva realizaram, na noite de segunda-feira (16), a abertura do 26º SET Universitário.

Foto: Giovanna Pozzer/ Famecos/ PUCRS

Foto: Giovanna Pozzer/ Famecos/ PUCRS

Rene, a convite do coordenador do curso de Jornalismo da PUCRS, Fábian Chelkanoff, iniciou a palestra. Seus relatos no twitter sobre a pacificação do Complexo do Alemão chamaram a atenção da imprensa. Em algumas horas, a página recebeu mais de cinco mil seguidores. “Eu não conhecia o poder das redes sociais e da comunicação comunitária antes disso”, relata.

No início, as pessoas desconfiavam da iniciativa. Uma das dificuldades, afirma Rene, era a pouca idade e a ingenuidade. Em seu blog, por exemplo, não teve dúvidas em colocar seu endereço e contato. O susto aconteceu no dia seguinte. “No portão de casa, tinha equipes de televisão querendo me entrevistar. Emissoras nacionais, BBC, CNN, até a Al Jazira”, conta.

Apesar dos desafios, o jornal manteve-se com a ajuda dos moradores. As pessoas apoiaram e incentivaram, por meio de doações e divulgação. “Acredito que, hoje, há um outro olhar sobre as favelas. É uma imagem mais positiva. Mas tudo isso só foi possível graças à própria comunidade”.

O ativista Jaílson acredita num ideal de cidadão pleno. Para ele, esse deve ter dimensão singular específica, ou seja, cada um é único. Ao mesmo tempo, cada cidadão tem seus pertencimentos e suas diferenças, o que os torna particulares, ainda tem humanidade genérica, o que faz com que reconheçam a todos, e uma dimensão de visão global.

“Sou um desnaturalizador da realidade”, define. Ele acredita que o preconceito é fruto de uma naturalização de ideias errôneas. De que o favelado é carente, por exemplo. Para Jaílson, muitas vezes a sociedade pensa que na favela há somente criminalidade – o paradigma da carência e violência. “A função é promover ações de comunicação para mostrar a favela a partir do cotidiano, rompendo esses paradigmas. Temos de aprender a enxergar a beleza na diferença. A alegria, inventividade e sociabilidade que há na favela”.

Ao final da palestra, a jornalista Sabrina Abreu e Rene Silva apresentaram o livro A voz do Alemão, lançado em outras capitais e que estava à venda no auditório.